Deixa-me Ser

Resenha: Só por hoje e para sempre Renato Russo – O diário do recomeço

download (2)Título: Só por hoje e para sempre

Autor: Renato Russo

Editora: Companhia das letras

Número de páginas: 168

Ano de publicação: 2015

Sinopse: Vinte e nove dias sem álcool e drogas: o diário que o líder da Legião Urbana escreveu na clínica de reabilitação. O relato escrito por Renato Russo entre abril e maio de 1993, expondo sua luta contra a dependência química e pela vida, finalmente está a disposição de seus fãs. Um depoimento íntimo, corajoso e repleto de humanidade. Mais do que os bastidores de uma das maiores bandas da música brasileira, e mais do que a reafirmação da sensibilidade do astro do rock, o que emerge destas páginas é o grande homem por trás do mito, determinado a se erguer das sombras em busca de luz.

Antes de tudo, quero dizer que, este livro tem um grande valor sentimental para mim. Durante a leitura criei um carinho muito especial pelo livro e por Renato Russo. Tive momentos de muita reflexão, foi um livro que me tocou bastante e acabei me identificando em algumas situações. Sou fã da Legião e pra quem também é e leu o livro, sabe do que estou dizendo.

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O livro se inicia com um prefácio de Giuliano Manfredini (filho de Renato) dizendo o seguinte:

" Meu convívio com meu pai foi breve, mas intenso. Poucos anos equivalem a séculos. Maior só a saudade."

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Só por hoje e para sempre é o diário de Renato Russo durante sua internação em Vila Serena (clínica de recuperação para dependentes químicos) no Rio de Janeiro no dia 6 de abril de 1993. Antes do álbum: O descobrimento do Brasil ser lançado, Renato Russo enfrentava um dos piores períodos de sua vida. Viciado no álcool, cocaína, heroína e outras drogas, como o próprio protagonista revela:

" Havia chegado ao meu fundo do poço."

Então as vésperas da semana santa, Renato decide se internar. Como parte do tratamento, Russo tinha que escrever sobre os seus dias na clínica. Ali detalhava como se sentia em Vila Serena  emocionalmente e fisicamente algumas vezes. Escrevia o que achava dos médicos, enfermeiros (inclusive tinha o seu favorito), seu relacionamento com outros internos, suas visitas. Sobre as atividades, dinâmicas, filmes, palestras assistidas e o principal: lembrava de episódios que o ajudavam a entender porque havia chegado aquela situação.

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Desinteressado pela vida, sofria uma grande depressão, não tinha mais controle de suas atitudes, sentia angústia, solidão e dor.

Renato conta que não só sua vida pessoal era afetada pela droga, mas seu trabalho e saúde também, onde quase havia morrido de overdose três  vezes. Teve uma Hepatite B seríssima devido a sua má alimentação e com isso sentia-se  culpado, com medo e vergonha. Sua relação com a família e pessoas era  tumultuada e complexa, por Renato ser uma pessoa difícil de lidar. Brigava com seus vizinhos, amigos e seus pais quando abusava do álcool. Provocava-os com som alto e aos berros na rua, expressava toda sua fúria.

"Fui considerado responsável pelo infarte do meu pai."   Página: 25

Chegou a um ponto em que não tinha relações com ninguém a não ser pelo telefone:

"Até hoje me sinto muito mal por causa disso e sinto ter desperdiçado minha vida."  Página: 26

Pelo o que entendi do livro eram três os motivos (que consequentemente desencadeavam outros problemas) que Renato Russo usava para culpar todas as suas frustações e o uso de drogas:

O mundo:

Renato Russo era um cara sensível e a tristeza o atingia facilmente, para ele temáticas como: fome, desigualdade social, preconceitos, guerras, violências, abuso, questões como: a vida e a morte, o universo, existencialismo, o ser humano como ele é e suas maldades, eram motivos mais que suficientes para se isolar atirando-se no álcool e drogas. Sentia muita raiva em relação as injustiças do mundo e por fazer parte dele.

"Costumava beber e ler jornais para alimentar esse tipo de ressentimento."  Página: 61

Muitos sentimentos o invadiam como: o medo, raiva, tristeza, ficava ofendido e magoado.  Isso tudo Renato absorvia mais que qualquer outra pessoa. Ele não era um cara que não refletia, pelo contrario, por pensar demais e saber demais ele se mostrava assim e as drogas eram sua válvula de escape para fugir e ao mesmo tempo enfrentar a a loucura que é viver nesse planeta.

As pessoas (o homem): 

Renato Russo era também um cara extremamente inteligente e super consciente de tudo que fazia. Se achava um gênio incompreendido:

"Talvez meu problema tenha sido justamente me achar especial demais para enfrentar o tédio e a estupidez do mundo. Utilizar-me das drogas para poder baixar o nível."  Página: 31

As pessoas para ele eram entediantes e idiotas. Além de falsas, tanto que durante o seu tratamento ele até estranhava o interesse e carinho que o pessoal da clínica tinha por ele:

"Todos são tão carinhosos comigo – não estou acostumado com isso ainda!"  Página: 114

Muitos de seus amigos eram só pela dependência química. Quando Renato Russo resolvia parar, ele era considerado o chato e sem graça da turma. Não respeitavam sua decisão e não o ajudavam. Quando estava em crise, se afastavam e alguns tiravam proveito da situação para usar drogas.

Ele mesmo:

As palavras autopiedade, culpa e dependência emocional aparecem com frequência nos diários de Renato . Queria ser aceito por todos e por isso dava muito de si para agradar os outros e esquecia que o mais importante era ele mesmo.  Seus relacionamentos amorosos era conflitantes:

"Procurava amor comprando sexo."  Página: 27

Quando não tentava manipular seus parceiros, era manipulado. Sempre foi solitário e carente necessitando demais de atenção. Na maioria das vezes não era correspondido e seus sentimentos era rejeitados, criando pensamentos negativos ao seu respeito como a autopiedade, sentia pena de si mesmo, injustiçado e triste. E com isso se afundava em heroína. Frustração, ressentimento, medo, insegurança, melancolia… eram sentimentos e emoções que seguiam a risca na sua personalidade. Russo conta várias histórias que ocorreram em que ficava  agressivo  por causa do álcool chegando a agredir as pessoas. A bebida era como uma libertação para toda sua revolta.

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Vontade de mudança:

No decorrer do livro Renato Russo se empenha bastante para mudar de vida, o leitor percebe isso com clareza que ele realmente quer se livrar da dependência química e não só disso mas de sentimentos que colaboravam para sua autodestruição. Metas eram criadas e ele trabalhava em cima disso, para obter exito em suas atividades colocadas pelo programa. Apesar de ter medo do mundo lá fora e receio com o que podia acontecer, procurava acreditar que ia conseguir (tamanha mudança) e chegar lá. Conforme os dias iam passando seu entusiasmo de viver e felicidade aos poucos eram trazidos de volta.

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Muitos outros assuntos foram relatados no livro por Renato, como sua criatividade para fantasiar, sua compulsão sexual, dúvidas e incertezas dos doze passos,  homossexualidade, sua mania de exagerar e dramatizar seus sentimentos fazendo  a desconfiança virar paranoia, a antipatia em ódio, amor em obsessão e por aí vai.. . Mas isso fica para quem ler todo livro. Algumas músicas como: Os anjos, Vinte nove dias e Só por hoje, lançadas no álbum: O descobrimento do Brasil foram criadas durante sua internação na clínica. Se você parar para analisar, as letras das músicas fecham com as ideias que Renato tinha e sentia em Vila Serena. Resumindo: toda a sua obra refletia sua vida!

Fico imensamente agradecida pela Companhia das Letras, pelo próprio Renato Russo e os responsáveis que tiveram a ideia brilhante e a iniciativa de publicar esse diário. Se o objetivo era a aproximação dos fãs, admiradores e leitores com Renato, sua forma de pensar e o que se passava com ele, sem sombra de dúvidas foi alcançado. Renato Manfredini Junior morreu 11 de outubro no ano de 1996 pela doença HIV(aids) com 36 anos, faltando um dia para o aniversário da banda. Essa doença, ele contraiu após se envolver com um rapaz que conheceu em Nova York (ele comenta isso no livro também)triste, não? Renato Russo foi um grande homem e suas ideias, canções, o legado de revolução que deixou para nós se manterá eternamente gravado em nossa memória e corações. 

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É uma leitura que vale muito a pena, principalmente para quem é fã!

Classificação: Modelo1-Favorito

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